O Parque ainda é do povo? | DINEY DE MELO
Aos 40 anos, o Parque do Povo revela como o Maior São João do Mundo mudou junto com Campina Grande, entre tradição, turismo, novos ritmos e disputa pela memória cultural

Publicado em: 2026-06-13
Veículo: Repórter Junino
Sobre esta publicação
Em Campina Grande, perguntar se o Parque ainda é do povo é mais do que uma provocação. É uma forma de olhar para a história de uma festa que nasceu das ruas, das quadrilhas de bairro, dos encontros comunitários e que se transformou em um dos maiores eventos populares do Brasil.
Em 2026, o Parque do Povo completa 40 anos de inauguração. O espaço, aberto em 14 de maio de 1986, foi pensado para centralizar, organizar e projetar a festa junina campinense. Quatro décadas depois, o chamado “Quartel General do Forró” segue como símbolo da cidade, mas também como palco de uma pergunta inevitável: como manter viva a tradição quando a própria festa se reinventa a cada ano?
Antes do palco principal, dos camarotes, das transmissões ao vivo e das grandes atrações nacionais, o São João de Campina Grande era vivido de forma espalhada. As quadrilhas ocupavam ruas e bairros, moradores organizavam festejos e a celebração tinha um caráter mais comunitário. Com a criação do Parque do Povo, a festa ganhou estrutura, visibilidade e força turística. O que antes era manifestação popular passou também a ser produto cultural, cartão-postal e motor econômico.
Essa transformação não aconteceu de uma vez. Ao longo dos anos, o Parque mudou de tamanho, de formato e de dinâmica. A festa passou a receber cidade cenográfica, camarotes, novos polos, grandes estruturas de palco e uma programação cada vez mais diversa. O forró continuou sendo a base simbólica da festa, mas deixou de ser o único idioma musical ouvido.
Em 2026, essa pluralidade fica ainda mais evidente. Na noite do dia 11 de junho, o rapper Matuê sobe novamente ao palco do Maior São João do Mundo, em uma noite que também reúne Jonas Esticado, Cavaleiros do Forró e Karkará. A presença do trap em uma festa historicamente associada ao forró pode causar estranhamento para alguns, mas também revela uma tentativa de dialogar com novas gerações e novos públicos.
Matuê, que retorna ao evento pelo terceiro ano consecutivo, representa esse movimento de expansão. Sua presença mostra que o São João de Campina Grande passou a conversar com jovens que talvez não se reconheçam apenas no repertório tradicional, mas que também ocupam o Parque, consomem a festa, circulam pela cidade e ajudam a construir a atmosfera do evento.
O mesmo acontece com outros ritmos. A programação deste ano abre espaço para nomes da MPB, do samba, do pagode, do sertanejo e do piseiro. Marisa Monte, Roberto Carlos, Menos é Mais, Sorriso Maroto, Martinho da Vila e Mart’nália aparecem ao lado de artistas ligados ao forró tradicional e contemporâneo. O resultado é uma festa que tenta equilibrar memória e mercado, tradição e atualização, pertencimento local e apelo turístico.
A questão, então, não parece ser apenas se o Parque ainda é do povo, mas a quais povos ele fala hoje.Para os defensores da diversidade musical, a presença de ritmos como trap, samba e MPB amplia o alcance da festa, atrai turistas, movimenta a economia e mostra que a cultura popular não é estática.