Noite chuvosa, forró quente | DINEY DE MELO
Sob a garoa suave, o Parque do Povo se ritmou ao som da sanfona e do triângulo, misturando tradição junina e novos ritmos

Publicado em: 2025-06-15
Veículo: Repórter Junino
Sobre esta publicação
Na noite de sábado, 14, a Serra da Borborema despejou uma garoa miúda que bordou o céu de prata, mas foi incapaz de apagar o lume do São João campinense. A chuva e o frio não esfriou o coração de quem buscava o forró raiz. O Parque do Povo amanheceu úmido e adormeceu ardendo em forró: um poema de passos, cores e cheiros.
Ao chegar, entrei pela lateral do Quadrilhódromo, onde as Flores Bela, de Santa Rita, rodopiava vestida de cetim; cada giro deixava no ar um perfume como das belas rainhas antigas. A Junina IESA, com suas crianças, trazia ao publico a história do cangaço e com os pés do xaxado levantava a poeira. A junina Serra Branca fechou a sequência, rodopiando vestida de tradição, lembrando a todos que o arrasta pé nunca sai de moda.
Segui em direção às ilhas de forró — Seu Vavá, Zé Lagoa, Zé Bezerra — onde o triângulo tilinta como se fosse orvalho sonoro. Vi casais encharcados de suor numa noite fria, girando num abraço que desafia o termômetro. Vi também dançarinos solitários, rendidos ao chamado da zabumba, fazendo par com as próprias sombras. Entre um passinho e outro, o cheiro de milho‑cozido escapava das barracas e se misturava ao vapor de canjica, criando um caldo invisível que aquecia mais que qualquer casaco.
Quando passei pelo Palco Cultural, fui imediatamente tomado pela força das vozes de Flavinha Rocha e depois por Alex Silva. Cada nota de forró romântico que ali cantavam parecia vibrar no corpo dos casais que se formavam aos seus pés, rendidos ao abraço e ao compasso. Mesmo enquanto o pulsar eletrônico de Alok invadia o Parque, arrastando multidões em busca do drop perfeito, ali, naquele recanto feito de acordeões e corações apaixonados, ninguém largou a dança a dois. Vi pares coladinhos sob a luz branda do palco, como se aquele instante fosse uma declaração de amor à tradição. Foi ali que entendi, mais uma vez, que o São João se reinventa a cada batida, mas só se mantém vivo enquanto houver casais embalados pelo forró.
Do Palco Principal pouco precisei registrar, já foi contado em outra matéria sobre Ranniery Gomes, Barões da Pisadinha, Alok e Joelma (Confira aqui). Mas bastava o eco das batidas eletrônicas chegar até mim para perceber a contradição mais bela da festa: o São João abre a porta a todos os ritmos, mas sua espinha dorsal segue feita de sanfona, triângulo e zabumba. Mesmo quem atravessava o mar de gente em busca do drop do DJ acabava se rendendo, vez ou outra, ao chamado ancestral do xote ou do arrasta‑pé.
Entre coretos, pirâmide e o vaivém, o Parque do Povo pulsa de dentro para fora. Cada pingo que cai do céu é nota musical; cada sorriso embaixo de guarda‑chuva é verso de cordel. O frio já não assusta, vira desculpa para dançar mais colado, para esquentar as mãos no copo de licor ou simplesmente para sentir o coração bater forte dentro do peito, como zabumba de romaria.
É bonito ver a festa se reinventar: eletrônica, arrocha e calipso, tudo cabe nessa sanfona gigante chamada Campina Grande. Mas o verdadeiro coração do São João continua batendo no compasso do forró. Quando a sanfona suspira, não importa o gênero que ecoa ao lado; todos os caminhos convergem para a mesma fogueira simbólica. Que venham os novos ritmos, mas que nunca falte o trio pé‑de‑serra que é guardião da memória e da chama que mantém acesa a alma nordestina. É na cadência ancestral do forró que reside a magia junina.