E a sanfona, Julião? | DINEY DE MELO

Da China antiga ao coração do Nordeste, a sanfona atravessou séculos para se tornar a voz do forró. E enquanto houver quem abrace a sanfona como Julião, haverá quem mantenha viva uma das maiores expressões da identidade cultural nordestina

E a sanfona, Julião?

Publicado em: 2026-07-01

Veículo: Repórter Junino

Sobre esta publicação

Quem já pisou no chão do Nordeste durante as festividades de junho conhece o magnetismo indescritível que emana de uma caixa de madeira, couro e metal. O som que rasga a noite junina não é um mero arranjo sonoro, é a própria pulsação de um povo. No entanto, para compreender a magnitude desse lamento festivo, se faz necessário viajar no tempo, cruzando oceanos e milênios, até desvelar as raízes profundas da nossa amada sanfona.

A jornada do instrumento que hoje define a identidade nordestina começou muito longe do sertão. Suas sementes foram plantadas na antiga Ásia, mais precisamente na China, com a invenção do Sheng, um instrumento milenar de palhetas livres feito de bambu que utilizava o princípio acústico do sopro e da vibração mecânica. Séculos mais tarde, esse conceito viajou pela Rota da Seda e aportou no continente europeu. Foi na Europa do século XIX, em meio à efervescência cultural e industrial de Viena, que o austríaco Cyrill Demian patenteou, em 1829, o formato primitivo do acordeon. O instrumento ganhou foles, botões e uma portabilidade que logo conquistaria o Velho Mundo.

Não demorou para que a novidade cruzasse o Atlântico. Trazida nos navios pelos imigrantes europeus, a sanfona desembarcou no Brasil e encontrou na região Nordeste o seu solo mais fértil. O povo da caatinga, acostumado com a crueza da vida e a riqueza da poesia oral, viu naquele sopro mecânico o eco para suas dores, preces e celebrações.

O reinado do fole

Se a sanfona chegou ao Brasil como uma visitante estrangeira, ela foi definitivamente coroada e naturalizada por um homem de chapéu de couro e olhar altivo: Luiz Gonzaga. O Velho Lua não apenas dominou o instrumento, ele fundou uma civilização estética. Gonzaga vestiu a sanfona com a farda do sertanejo e, através do xote, xaxado e baião, abriu caminhos intransitáveis, transformando o sofrimento da seca em poesia altiva e resistente. Depois dele, mestres como Dominguinhos trouxeram uma sofisticação harmônica quase celestial, provando que o fole era capaz de dialogar com as estrelas sem perder a poeira do chão.

É com essa herança bendita que firmamos uma tese inegociável: festa de São João e forró sem sanfona simplesmente não existem. O que se vê hoje, muitas vezes, em palcos modernos descaracterizados e repletos de batidas eletrônicas plásticas e modismos efêmeros, é uma tentativa pálida de simular uma alegria que só o fole autêntico consegue parir. Defender a sanfona é defender o forró raiz, a identidade cultural nordestina que resiste ao tempo. É um ato de respeito ao passado e de salvaguarda do futuro. Uma linha contínua e sagrada que começou em Luiz Gonzaga, atravessou a genialidade de Dominguinhos e deságua em outras gerações de instrumentistas até chegar em André Julião.

A voz do sanfoneiro

Para entender como essa chama permanece acesa nos dias de hoje, fomos ao encontro de quem carrega a responsabilidade de manter vivo esse legado. André Julião, pernambucano e caruaruense legítimo, é atualmente o sanfoneiro que comanda a consagrada volante do “Capitão” Alceu Valença.