Caldinhos que esquentam a alma | DINEY DE MELO
Durante noites frias, os caldinhos se consolidam como um dos sabores mais afetivos da gastronomia nordestina

Publicado em: 2026-08-24
Sobre esta publicação
No Nordeste, há comidas que alimentam e outras que acolhem. Os caldinhos pertencem a segunda categoria. Servidos em copos ou pequenas cuias, fumegando sobre balcões improvisados, bancas de rua, bares ou mercados públicos, eles têm o dom de reunir pessoas. Quem pede um caldo raramente está com pressa. Fica mais um pouco. Conversa. Espera o vapor subir antes do primeiro gole. Talvez seja justamente essa a força dos caldinhos, eles transformam um alimento simples em um ritual de encontro.
Embora cada estado nordestino tenha suas próprias receitas e preferências, a tradição dos caldos quentes acompanha a história da região há séculos. Algumas dessas preparações nasceu do aproveitamento integral dos alimentos durante o período colonial, quando carnes, feijões, raízes e legumes eram cozidos lentamente para render refeições nutritivas e acessíveis. Com o tempo, deixaram de ser apenas comida de subsistência para ganhar espaço em feiras, botecos, praias e festas populares, tornando-se um dos símbolos da culinária regional.
No agreste paraibano, onde o inverno costuma trazer noites surpreendentemente frias, o costume encontrou terreno fértil. Não é raro que o cheiro de alho refogado, coentro fresco e carnes cozidas anuncie, antes mesmo da visão, que há um caldinho sendo servido por perto.
É nesse cenário que Campina Grande ajudou a transformar uma tradição doméstica em patrimônio afetivo. Conhecida mundialmente pela festa de São João, a cidade fez dos caldinhos um dos sabores mais lembrados por quem passa pelo Parque do Povo. Enquanto o milho reina absoluto nas mesas juninas, os copos fumegantes circulam entre os forrozeiros como companhia quase indispensável para enfrentar o frio das madrugadas. A própria história do forró está profundamente ligada às festas juninas e a convivência em torno da comida, da música e da celebração coletiva.
Mas reduzir os caldinhos ao mês de junho seria uma injustiça. Eles continuam presentes durante o ano inteiro, reinventando receitas, conquistando novos públicos e preservando um saber que passa, quase sempre, de panela em panela, de família em família.
Há dezoito anos, Valmir Moura decidiu apostar nessa tradição. Natural de Maceió, foi uma temporada em Campina Grande que mudou completamente seus planos de vida: "Vim dar um passeio aqui em Campina Grande, de férias, e vi que o comércio era bom. Quando voltei para Maceió, minha cidade, pedi demissão da empresa que trabalhava e decidi vir vender caldinhos. Temos doze tipos de caldos aqui e os que mais saem são os de picado de bode, fava, camarão e peixe."
A fala resume uma característica comum entre quem trabalha com esse tipo de gastronomia. Dificilmente o negócio se sustenta apenas pela receita. Existe também uma relação construída com os clientes, muitos deles habituais, que retornam em busca do mesmo sabor ano após ano.
Foi quase por acaso que Kennedy Lima entrou nesse universo. Advogado de profissão, enxergou em um espaço vazio do escritório uma oportunidade que começou despretensiosa e acabou crescendo muito além do esperado: